os cravos, brancos e vermelhos, que eu levei para Pascoaes, quando fui visitara Quinta em que ele viveu.... nesta foto, vejo a 'capelinha dos milagres', quefica na estrada que vai dar na Quinta.... essa capelinha foi muito querida pelo meu querido poetaDigamos que o ESPAÇO MARANUS está quase pronto para dar sua primeira respiração. Nessa aurora, já conto um pouco dos caminhos que me trouxeram até aqui. Tudo nunca começou, já tendo sempre começado, mas lá pelos 16 anos, após assistir a uma palestra do querido Cid Marcus Vasques, em Ribeirão Preto, sobre 'eros', escutei o bombear do sangue, a estrela-dalva dos caminhos: astrologia. Fiz meu primeiro e querido mapa com esse homem que será sempre meu mais caro professor e amigo. Escutava e re-escutava sem fim aquela fitinha que ele me mandara, de São Paulo. Um rumo se aprumava: vir a São Paulo, e estando aqui, procurá-lo.
Cheguei em 1999, para as faculdades, as caminhadas na Av Paulista, sempre tão boas para minha lua no meio-do-céu, um certo carismático apreço pelas multidões, e os cursos semanais na Palas Athena. Foram anos frequentando essa maravilhosa Associação. Depois, outros cursos na Fundação Oscar Americano, e sempre o diálogo rico, a troca de livros e os encontros para cafés numa esquina da cidade: minha convivência com Cid Marcus, a entrada criteriosa e apaixonada pelo caminho vasto dos astros.
Dentro dessa meada, outra paixão ascendente: Portugal. Primeiro, Sá-Carneiro. Depois Almada, Pessoa, e enfim, a descoberta do homem que amava ter nascido no 'dia mais triste do mundo': Teixeira de Pascoaes. Os mitos portugueses, um traçado por dentro da universidade, com pesquisa e tempo dedicados, a esse campo ultramarino, fascinante, perigoso, cheio de água, que é Portugal. Duas flechas assopradas ao céu: Portugal, astrologia. E, de algum modo, misterioso, um homem que me cativou, unindo essas pontas: Pascoaes.
Quando li 'Marânus', já bem depois, em 2003, antes de minha primeira ida ao país do Destino, fiquei noturna, mareada, afugentada: havia os anjos, havia uma mata de neblinas: havia isso tudo no mais trivial do dia-a-dia, dentro do barulho nauseante e ambíguo da cidade em século novo. Havia uma profunda necessidade de ritmo e de ritual, uma auto-descoberta como cápsulas diárias, tomadas como uma memória do futuro, um outro tempo habitado fora do tempo, lua-saturno me arando o mapa, fechando-o para uma abertura de sentidos mais difíceis, e estranhamente, mais reais. Era como tudo começou a se fazer sentir em mim.
No final de 2008 acabei o mestrado, justamente sobre o retorno dos mitos portugueses, e de todo um imaginário, ao espaço do debate cultural contemporâneo em Portugal. Estudei a revista 'Nova Renascença'. Com o término desse longo processo de escrita e leitura, fui novamente a Portugal.
Já outono: primeira vez que eu via e cheirava a tonalidade dessa estação. E, guiada por essa despedida das cores, por essa entrada e contração - concentração, cheguei a Amarante, e nela, à casa do Pascoaes. Fui muito bem recebida por Maria Amélia Teixeira de Vasconcelos, que fora casada com o sobrinho-afilhado do poeta, e que convivera alguns anos com ele. A quinta, imensa, invernal, parece ter sido coberta por uma fina membrana, conservando-a com os aromas e os sons de tempos já submersos. Um outro Portugal ficou guardado naquela casa, espécie de túmulo e semente, de energias que agora só são dispostas a quem cave com muita atenção esta terra selada. Maria Amélia abriu as partes da casa em que Pascoaes viveu, dormiu e trabalhou. Tudo continua ali, até os últimos cigarros feitos nas mãos do velho homem, os livros lidos, as pedrinhas que ele recolhia, nos riachos e beiras, em seus passeios - que imagino matinais - pelas margens do Tâmega. Ali o mirante, que Pascoaes mandou construir quando escrevia "Maranus" e em cujas paredes tatuou de punho próprio os primeiros versos - outros - do poema, em que o poeta encontra o poema e ambos se amam, para da mesma janela subjetiva, ver o mundo:
Maranus este triste vagabundoAqui neste miranteDonde se viste o mundoCompôs em verso pobre, a sua História Andante
foto que tirei de dentro do quarto do Pascoaes, olhando parasua escrivaninha e estantes de livros...Posso ainda sentir a temperatura do vento frio do Marão. E ver novamente a extensão da paisagem cuja imagem alargada é o próprio Pascoaes, em mim. Voltei a São Paulo e idéias sobre um doutorado em Pascoaes começaram a ressoar. Mas não. Ou não ainda. Cravei a mão na escrita, entrei em paragens de outras vozes (Brasil, poetas jovens, alteridades, éticas, astrocaracterologia), outros estudos apontaram. E, de repente, num outro repente uraniano, o seu clarão: era hora de pôr a mão na massa. Trabalhar a sério esse continente de amor que em mim se chama o serviço da astrologia, o estudo da literatura e a escrita. Esse triângulo que me dá mundo e que me infla os pulmões agora está prestes a ser na vida, ser com ossos, estruturado para melhor dar, oferecer, acolher: é assim que se gestou o ESPAÇO MARANUS, criança antiga que eu sou, e que agora me mostra a face e que agora caminha pelo mundo, feliz e imenso pelo encontro com os outros, com as pessoas e suas próprias guias, as pessoas e seus continentes, seus labirintos e rotas que arfam e ondulam dentro daquilo que chamamos 'mapas astrais'.
É Pascoaes quem escolhi para ser meu mentor e cuidar desse pequeno ponto que agora vem se estabelecer na cidade de São Paulo, aberto a tudo e a todos que vêm em busca da espontânea força circular da vida. Em datas de quase, como é esse domingo de 21 de junho, agradeço já e abro os braços a esse novo passo da vida em direção à vida. Brindo com todos que me trouxeram pela mão quente até aqui, todos os amigos e companheiros e irmãos, todos, todos. O Espaço Maranus é de todos vocês, e dos que estão ainda por vir. Oxalá, Pascoaes. Oxalá, pessoas luminosas que fizeram meu caminho.
Em alguns dias, se tudo tiver que ser, nasce mais uma centelha, mais um espaço totalmente destinado às trocas e aos afetos, sob a guarda mais doce de um sonho: em 2005, num sonho, numa noite, encontrei-me com Pascoaes. Estava eu numa roda com jovens, todos um pouco agoniados em relação ao futuro, jovens que queriam descobrir novas maneiras de se aproximar dos outros e tentar a comunhão. A sala era contemporânea e térrea. De repente - outro outro repente - chega Pascoaes. Nós estávamos - os jovens - sentados no chão. Ele sentou-se numa cadeira de palha, do meu lado. Só escutou, escutou o rumorejar daquelas pessoas todas, que em conversas paralelas, pensavam e ouviam os demais. Ele escutava a todos, ao mesmo tempo. Eu fiquei quieta, observando-o. Então, ele me viu. Ficamos nos olhando por um tempo, e os olhos iam conhecendo o significado da ternura. Ele, muito idoso já, levantou as mãos trêmulas, passou a mão na minha cabeça e levou-a para pousar em seu colo. Só isso. Depois, voltou-se para a grande roda e continuou a escutar as pessoas. Eu lá fiquei, em estado de graça, com a cabeça deitada no colo daquele homem.
Ouvir, escutar: grande arte. Que eu aprenda contigo, querido Pascoaes, essa delicadeza. E que teu colo continue amparando o que há entre meu rosto e o chão, para que o encontro se dê na terra, todos sentados no chão, irmãos, desenvolvendo fio a fio o que pela primeira vez apreendi naquele olhar: ternura.
axé, evóe, bem-vindo Espaço Maranus
bem-vindos, todos os seres que olham ternura
um beijo
Roberta Ferraz